Fibrilação atrial: por que uma alteração no ritmo do coração pode causar um AVC?
Ela pode causar palpitações, passar despercebida por muito tempo e aumentar o risco de AVC. Entenda como a fibrilação atrial afeta o coração, quais sintomas merecem atenção e como o tratamento previne complicações.

A fibrilação atrial é uma arritmia em que os átrios, as duas câmaras superiores do coração, apresentam atividade elétrica desorganizada. Em vez de se contraírem de maneira coordenada, eles passam a vibrar rapidamente. Isso frequentemente produz batimentos irregulares e, em alguns casos, aceleração do coração.
O coração pode estar batendo fora do ritmo enquanto a pessoa continua trabalhando, caminhando e realizando suas atividades habituais. Essa é uma das características da fibrilação atrial: ela pode provocar sintomas incômodos, mas também pode existir sem que a pessoa perceba. O problema é que a ausência de sintomas não significa ausência de riscos.
O que acontece com o coração na fibrilação atrial?
Para entender a fibrilação atrial, primeiro precisamos conhecer um pouco do funcionamento normal do coração.
Nosso coração possui quatro câmaras: duas superiores, chamadas átrios, e duas inferiores, chamadas ventrículos. Essas câmaras trabalham de maneira coordenada para manter o sangue circulando pelo organismo.
Os átrios recebem o sangue que chega ao coração e, ao se contraírem, ajudam a completar o enchimento dos ventrículos. Em seguida, os ventrículos se contraem, bombeando o sangue para os pulmões e para o restante do corpo.
Mas como o coração consegue coordenar todos esses movimentos?
Isso acontece graças ao seu próprio sistema elétrico. Na parte superior do coração, existe uma pequena estrutura chamada nó sinusal, que funciona como um marcapasso natural. Ela produz impulsos elétricos que se espalham pelos átrios, estimulando sua contração.
Depois, esses impulsos passam por outra estrutura, chamada nó atrioventricular, que funciona como uma espécie de filtro. Além de produzir um pequeno atraso, permitindo que os átrios terminem sua contração antes dos ventrículos, ele controla a passagem dos estímulos elétricos para as câmaras inferiores.
É essa organização que permite ao coração manter um ritmo regular e eficiente.
Na fibrilação atrial, o problema começa justamente nessa organização elétrica.
Em vez de impulsos coordenados, múltiplas ondas elétricas passam a circular de maneira desorganizada pelos átrios. A atividade elétrica pode atingir centenas de impulsos por minuto, fazendo com que essas câmaras apresentem movimentos rápidos e desordenados, em vez de uma contração eficiente. Daí vem o nome fibrilação atrial.
Felizmente, o nó atrioventricular consegue bloquear grande parte desses estímulos, impedindo que todos cheguem aos ventrículos. Mesmo assim, os impulsos que conseguem passar chegam em intervalos irregulares.
Por isso, o coração passa a bater fora do ritmo habitual e, muitas vezes, de maneira acelerada. É essa alteração que pode provocar a sensação de palpitações ou batimentos descompassados.
Além disso, como os átrios deixam de se contrair adequadamente, o sangue pode circular mais lentamente em determinadas regiões do coração, favorecendo a formação de coágulos — uma das principais preocupações relacionadas à fibrilação atrial.
Quais são os sintomas da fibrilação atrial?
Palpitações são uma manifestação comum. A pessoa pode sentir o coração disparado, batendo de forma irregular ou como se estivesse falhando. Também podem ocorrer cansaço, falta de ar, tontura, desconforto no peito e diminuição da capacidade para exercícios.
Entretanto, algumas pessoas não sentem nada. A arritmia pode ser descoberta em uma consulta de rotina, em um eletrocardiograma realizado por outro motivo ou durante a investigação de um AVC. Não é possível confirmar nem descartar fibrilação atrial apenas pelos sintomas.
Por que a fibrilação atrial aumenta o risco de AVC?
Quando os átrios deixam de se contrair adequadamente, o sangue pode circular mais lentamente em certas regiões, principalmente no apêndice atrial esquerdo, uma pequena bolsa ligada ao átrio esquerdo. Essa lentidão favorece a formação de coágulos.
Se um coágulo se desprende e entra na circulação, pode ir para qualquer local do corpo, causando complicações por entupimento (embolia). Se ele alcançar uma artéria do cérebro e obstruir a passagem de sangue, pode provocar um AVC isquêmico. Por isso, prevenir a formação de coágulos é uma das principais prioridades do tratamento.

O risco, porém, não é igual para todos. Idade, hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca, histórico de AVC e outras condições influenciam essa avaliação. Além disso, mesmo pessoas que apresentam episódios intermitentes de fibrilação atrial podem precisar de prevenção do AVC, conforme seu perfil de risco.
Quem tem mais chances de desenvolver essa arritmia?
A fibrilação atrial se torna mais frequente com o avanço da idade, mas também está associada à hipertensão arterial, obesidade, apneia obstrutiva do sono, doenças das válvulas cardíacas, insuficiência cardíaca, diabetes, alterações da tireoide e consumo excessivo de álcool.
Em determinadas situações, a arritmia surge sem que seja identificada uma causa isolada. Tratar doenças associadas, controlar a pressão arterial, cuidar do peso e evitar o consumo excessivo de álcool são medidas relevantes tanto para a saúde cardiovascular quanto para o controle da fibrilação atrial.
Como é feito o diagnóstico?
O exame mais utilizado para confirmar a fibrilação atrial é o eletrocardiograma (ECG), que registra a atividade elétrica do coração. Ele permite identificar o padrão de ritmo característico da arritmia quando ela está presente durante o registro.
Quando os episódios aparecem e desaparecem, um eletrocardiograma realizado no consultório pode estar normal. Nesses casos, o médico pode indicar monitorização prolongada, como Holter ou outros dispositivos de registro do ritmo. Exames como o ecocardiograma e avaliações laboratoriais também podem ser utilizados para investigar condições associadas e orientar as decisões terapêuticas.
Relógios inteligentes e dispositivos capazes de detectar irregularidades do pulso podem levantar uma suspeita, mas alertas automáticos não devem ser tratados, isoladamente, como um diagnóstico definitivo.
Como funciona o tratamento da fibrilação atrial?
O tratamento tem três objetivos principais: prevenir AVC e outras complicações, reduzir os sintomas e tratar os fatores que favorecem a arritmia. A estratégia depende da idade, das doenças associadas, dos sintomas, dos exames e das preferências do paciente.
Prevenção de AVC: quando entram os anticoagulantes?
Em pessoas com risco suficientemente elevado de AVC, o médico pode prescrever anticoagulantes. Esses medicamentos diminuem a capacidade de formação de coágulos e reduzem o risco de eventos embólicos. A indicação é individualizada, considerando o benefício esperado e o risco de sangramento.
É importante esclarecer dois pontos: nem todo paciente com fibrilação atrial precisa tomar anticoagulante, e a aspirina não é uma alternativa equivalente para prevenir AVC nessa situação quando a anticoagulação está indicada. Quem já usa anticoagulante não deve interrompê-lo por conta própria, mesmo que as palpitações desapareçam ou o ritmo volte ao normal.
Controle da frequência e do ritmo cardíaco
O médico pode utilizar medicamentos para reduzir a frequência dos batimentos, sem necessariamente eliminar a fibrilação atrial, ou adotar estratégias para recuperar e manter o ritmo normal do coração. Essas estratégias incluem medicamentos antiarrítmicos e cardioversão elétrica, procedimento que usa um choque sincronizado para tentar restaurar o ritmo organizado.
Em pacientes selecionados, a ablação por cateter pode ser uma opção. Nela, cateteres introduzidos nos vasos sanguíneos são utilizados para tratar regiões do coração que participam do início ou manutenção da arritmia. A escolha entre essas abordagens depende do quadro clínico e exige avaliação especializada.
É possível viver bem com fibrilação atrial?
Sim. Muitas pessoas mantêm suas atividades habituais com acompanhamento e tratamento apropriados. Controlar a pressão arterial, praticar atividade física conforme orientação, cuidar do peso, tratar apneia do sono quando presente e reduzir ou evitar álcool são medidas que podem contribuir para o cuidado.
O acompanhamento também permite reavaliar o risco de AVC ao longo do tempo. Mesmo uma pessoa que inicialmente não precisou de anticoagulante pode passar a ter indicação se desenvolver novos fatores de risco.
Quando procurar atendimento de urgência?
Dor no peito importante, desmaio, dificuldade intensa para respirar ou piora súbita do estado geral exigem avaliação imediata. Boca torta, fraqueza de um lado do corpo, dificuldade para falar, perda súbita de visão ou outros sintomas neurológicos repentinos podem indicar AVC. Nesses casos, acione o SAMU pelo número 192.
O que realmente importa saber
A fibrilação atrial não é apenas uma sensação de coração acelerado. Ela pode passar despercebida e, em algumas pessoas, favorecer a formação de coágulos capazes de causar AVC. O diagnóstico adequado e uma avaliação individualizada do risco são fundamentais para escolher um tratamento que proteja a saúde e preserve a qualidade de vida.
Referências bibliográficas
Van Gelder IC et al. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation. European Heart Journal. 2024. DOI: 10.1093/eurheartj/ehae176.
Joglar JA et al. 2023 ACC/AHA/ACCP/HRS Guideline for the Diagnosis and Management of Atrial Fibrillation. Journal of the American College of Cardiology. 2024. DOI: 10.1016/j.jacc.2023.08.017.

Comentários