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Insuficiência cardíaca: por que o coração pode causar falta de ar e inchaço?

há 11 minutos
6 min de leitura

A insuficiência cardíaca acontece quando o coração não consegue bombear o sangue de maneira adequada às necessidades do organismo ou só consegue fazê-lo à custa de pressões elevadas. Entenda por que isso pode provocar falta de ar, inchaço e cansaço — e como o diagnóstico e o tratamento podem melhorar a vida do paciente.


Ilustração do coração e pulmões com circulação sanguínea e representações de falta de ar e edema

A história é mais ou menos assim: gradualmente, a pessoa começa a perceber que subir uma escada está mais difícil. Depois, passa a sentir falta de ar ao se deitar e nota que os sapatos apertam no fim do dia. Esses sinais podem ter várias causas, mas, quando aparecem juntos, uma das possibilidades que precisa ser investigada é a insuficiência cardíaca.


Apesar do nome, insuficiência cardíaca não significa que o coração tenha parado de funcionar. É uma condição em que sua capacidade de bombear e receber sangue fica prejudicada. O problema pode se instalar lentamente ou surgir de maneira rápida, e o tratamento depende do que está acontecendo com o coração de cada pessoa.


Como o coração trabalha normalmente?


O coração possui quatro câmaras: dois átrios, na parte superior, e dois ventrículos, na parte inferior. O lado direito recebe o sangue que retorna do corpo e o envia aos pulmões, onde ele recebe oxigênio. O lado esquerdo recebe esse sangue oxigenado dos pulmões e o bombeia para o restante do organismo.


Para isso funcionar bem, o músculo cardíaco precisa relaxar e se encher de sangue entre os batimentos e, depois, contrair-se com força suficiente para impulsioná-lo. As válvulas ajudam a manter o sangue seguindo na direção correta. Tudo acontece de maneira coordenada, milhares de vezes por dia.


O que muda na insuficiência cardíaca?


Em algumas pessoas, o coração perde força para se contrair. Em outras, o músculo fica mais rígido e apresenta dificuldade para relaxar e receber sangue, mesmo que continue se contraindo relativamente bem. Também existem situações em que os dois problemas se combinam.


Quando o bombeamento ou o enchimento não funcionam adequadamente, a pressão pode aumentar nas câmaras cardíacas e nas veias que levam sangue até elas. O organismo também ativa mecanismos de compensação, como reter sal e água. Embora isso possa ajudar temporariamente a manter a circulação, a longo prazo favorece o acúmulo de líquido e a sobrecarga do coração.


Por que a insuficiência cardíaca causa falta de ar?


O sangue que vem dos pulmões chega ao lado esquerdo do coração. Se esse lado apresenta dificuldade para receber ou bombear o sangue, a pressão pode se acumular nos vasos pulmonares. Isso favorece a saída de líquido para o tecido dos pulmões, dificultando as trocas de oxigênio e provocando sensação de falta de ar.


No começo, a falta de ar pode surgir apenas durante atividades físicas. Em quadros mais avançados, a pessoa pode sentir desconforto ao se deitar, precisar usar vários travesseiros ou acordar à noite com falta de ar. Entretanto, esses sintomas não são exclusivos da insuficiência cardíaca: doenças pulmonares e outras condições também podem provocá-los.


E por que os pés e as pernas ficam inchados?


Quando a circulação fica congestionada e o organismo retém sódio e água, parte do líquido pode se acumular nos tecidos, sobretudo nas pernas e nos tornozelos. Em algumas pessoas, o inchaço aumenta ao longo do dia. O ganho rápido de peso também pode ser consequência dessa retenção de líquido.


O inchaço isolado não confirma insuficiência cardíaca. Problemas nas veias, doenças dos rins, medicamentos e outras situações podem causar edema. O médico considera o conjunto de sintomas, exame físico e resultados dos exames para descobrir a origem.


Infográfico em português explicando insuficiência de bombeamento, congestão pulmonar e edema das pernas

Quais são os principais sintomas?


Além da falta de ar e do inchaço, podem ocorrer cansaço desproporcional, redução da capacidade para caminhar ou fazer exercícios, tosse ao deitar, sensação de barriga estufada e necessidade de urinar mais durante a noite. A intensidade varia bastante de pessoa para pessoa.


Na insuficiência cardíaca mais avançada, podem aparecer perda de apetite, fraqueza importante e dificuldade até para atividades simples. Já em fases estáveis, algumas pessoas conseguem manter boa parte da rotina graças ao tratamento. A ausência de inchaço não exclui a doença.


O que pode causar insuficiência cardíaca?


Hipertensão arterial mal controlada, infarto do miocárdio e doença das artérias coronárias estão entre as causas importantes. Problemas nas válvulas cardíacas, certas arritmias, inflamações do músculo cardíaco e algumas doenças hereditárias também podem comprometer o funcionamento do coração.


O consumo excessivo de álcool e determinados tratamentos oncológicos podem provocar lesões no músculo cardíaco em situações específicas. Diabetes, obesidade e doença renal aumentam o risco e podem dificultar o tratamento. Descobrir a causa é fundamental porque algumas condições são tratáveis e exigem medidas próprias.


Como é feito o diagnóstico?


A investigação começa pela conversa sobre sintomas, doenças anteriores e medicamentos, seguida do exame físico. O médico pode solicitar eletrocardiograma, radiografia do tórax e exames de sangue. Entre esses exames estão o BNP e o NT-proBNP, substâncias que costumam aumentar quando o coração sofre sobrecarga, embora seus resultados precisem ser interpretados de acordo com o contexto.


O ecocardiograma é especialmente importante. Por meio de ultrassom, ele mostra o tamanho das câmaras, o funcionamento das válvulas e como o coração se contrai e relaxa. Uma medida conhecida como fração de ejeção ajuda a avaliar a parcela de sangue expulsa pelo ventrículo esquerdo a cada batimento.


Uma fração de ejeção reduzida pode indicar alteração da função de bombeamento, mas atenção: uma pessoa pode ter insuficiência cardíaca mesmo com a fração de ejeção preservada. Por isso, nenhum número deve ser interpretado isoladamente.


A insuficiência cardíaca tem tratamento?


Tem, e ele mudou muito nas últimas décadas. O objetivo não é apenas aliviar o inchaço ou a falta de ar, mas também reduzir internações, proteger o coração e, em muitos casos, aumentar a sobrevida. O esquema precisa ser ajustado ao tipo de insuficiência cardíaca, à causa, à função renal, à pressão arterial e a outras condições clínicas.


Quando há acúmulo de líquido, diuréticos como furosemida podem aliviar a congestão e melhorar os sintomas. Entretanto, aliviar o inchaço é apenas uma parte do cuidado: outros medicamentos têm papel essencial na proteção do coração a longo prazo.


Quais medicamentos ajudam a proteger o coração?


Na insuficiência cardíaca com redução da função de bombeamento, o tratamento frequentemente inclui diferentes classes de medicamentos que atuam em mecanismos complementares. Entre elas estão betabloqueadores, como carvedilol e bisoprolol; antagonistas dos receptores de mineralocorticoides, como espironolactona; e inibidores de SGLT2, como dapagliflozina e empagliflozina.


Também podem ser utilizados medicamentos que atuam no sistema renina-angiotensina, como o sacubitril associado à valsartana, ou inibidores da enzima conversora de angiotensina, como enalapril, conforme indicação e tolerância. Esses grupos não são intercambiáveis por conta própria, e algumas combinações são contraindicadas. A seleção e o ajuste exigem acompanhamento médico.


Nos pacientes com fração de ejeção preservada, parte das escolhas terapêuticas é diferente. O controle da pressão, das arritmias, da doença renal e de outras condições associadas ganha destaque, e medicamentos como os inibidores de SGLT2 e antagonistas de mineralocorticoides podem trazer benefícios em pessoas elegíveis. As recomendações precisam acompanhar a evolução das diretrizes e as características de cada paciente.


Mudanças de hábitos e outros tratamentos


Reduzir o excesso de sal, seguir orientações individualizadas sobre ingestão de líquidos, evitar tabagismo e consumo excessivo de álcool e praticar atividade física ou reabilitação cardíaca quando liberado são medidas relevantes. Acompanhar o peso pode ajudar a perceber retenção de líquido, especialmente quando o profissional de saúde estabelece um plano claro para agir diante de mudanças.


Dependendo da causa e da gravidade, também pode ser necessário tratar válvulas doentes ou artérias coronárias, controlar arritmias ou considerar dispositivos cardíacos específicos. Em casos avançados e selecionados, existem opções como assistência circulatória mecânica e transplante.


Quando procurar atendimento urgente?


Falta de ar intensa ou de início súbito, dificuldade importante para respirar mesmo em repouso, dor no peito persistente, desmaio ou confusão súbita exigem avaliação imediata. No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo 192. Piora progressiva do inchaço, ganho rápido de peso ou aumento da falta de ar também justificam contato rápido com a equipe de saúde, mesmo sem emergência evidente.


O que vale lembrar


A insuficiência cardíaca não significa que o coração deixou de bater. O problema está na dificuldade de receber ou bombear sangue adequadamente, o que pode gerar pressão elevada na circulação e retenção de líquido. Entender o mecanismo ajuda a reconhecer por que surgem falta de ar, cansaço e inchaço, mas a confirmação depende de avaliação clínica e exames.




Referências bibliográficas


European Society of Cardiology. 2026 ESC Guidelines for the management of heart failure. European Heart Journal. 2026. DOI: 10.1093/eurheartj/ehag100. https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehag100


National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Chronic heart failure in adults: diagnosis and management (NG106). Atualizada em 2025. https://www.nice.org.uk/guidance/ng106/chapter/recommendations


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