Nefropatia diabética: como o diabetes pode prejudicar os rins sem dar sinais?
A nefropatia diabética é uma lesão dos rins associada ao diabetes, que pode se desenvolver lentamente e sem sintomas. Entenda por que ela acontece, quais exames ajudam a identificá-la e como proteger a função renal.

Uma pessoa pode ter diabetes há vários anos, sentir-se bem e ainda assim começar a apresentar alterações nos rins. Isso acontece porque os danos iniciais frequentemente não provocam dor nem mudanças perceptíveis na quantidade de urina. Por isso, esperar pelos sintomas não é uma boa estratégia para descobrir o problema.
A nefropatia diabética, também chamada de doença renal diabética em muitos contextos, é uma das possíveis complicações do diabetes. Ela pode comprometer progressivamente a capacidade dos rins de filtrar o sangue. Nem toda doença renal em uma pessoa com diabetes, porém, é causada pelo próprio diabetes: existem outras doenças renais que precisam ser consideradas durante a avaliação.
Como os rins funcionam normalmente?
Os rins são dois órgãos localizados na parte de trás do abdome, um de cada lado da coluna. Eles recebem continuamente sangue para filtrar resíduos do metabolismo, equilibrar a quantidade de água e sais minerais e ajudar a controlar a pressão arterial. Também participam da produção de hormônios importantes para o organismo.
Dentro de cada rim existem aproximadamente um milhão de pequenas unidades de filtração, chamadas néfrons. Em cada néfron há um conjunto de vasos sanguíneos muito finos, o glomérulo, que funciona como um filtro. Por ele passam água e pequenas substâncias que formarão o filtrado renal, enquanto células do sangue e a maior parte das proteínas são mantidas na circulação.
Depois dessa primeira etapa, os túbulos renais recuperam boa parte da água e das substâncias de que o corpo ainda precisa. O que sobra é eliminado na urina. Esse trabalho depende tanto de filtros íntegros quanto de uma circulação sanguínea adequada.
Como o diabetes pode danificar os rins?
Quando a glicose permanece elevada no sangue por muito tempo, ela contribui para alterações químicas, inflamatórias e circulatórias nos pequenos vasos dos rins. Em muitos casos, os glomérulos passam inicialmente a trabalhar sob pressão excessiva. Com o passar dos anos, suas estruturas podem se espessar, perder a capacidade de selecionar adequadamente as substâncias filtradas e desenvolver cicatrizes.
Uma das consequências é a passagem de albumina para a urina. A albumina é uma proteína normalmente presente no sangue que, em condições habituais, fica quase toda retida pelos filtros renais. Sua presença persistente em quantidade aumentada na urina pode indicar dano renal. Com a progressão da doença, os rins também podem perder parte de sua capacidade de filtração.
Esse processo não ocorre da mesma forma em todas as pessoas. Alguns pacientes apresentam redução da função renal sem aumento importante da albumina na urina. A pressão alta, o tabagismo e outros fatores cardiovasculares podem acelerar o comprometimento dos rins.

A nefropatia diabética provoca sintomas?
Nas fases iniciais, geralmente não. Esse é um dos motivos pelos quais o acompanhamento laboratorial é tão importante. A pessoa pode urinar normalmente e não sentir qualquer desconforto, mesmo quando já existem alterações detectáveis nos exames.
Quando a doença renal se torna mais avançada, podem aparecer inchaço nas pernas e ao redor dos olhos, cansaço, perda de apetite, náuseas e alterações da pressão arterial. Esses sintomas não são exclusivos da nefropatia diabética e precisam ser investigados. Urina espumosa pode ocorrer quando há perda importante de proteínas, mas, isoladamente, não confirma o diagnóstico.
Quais exames mostram se o diabetes está afetando os rins?
Dois exames têm papel central: a relação albumina/creatinina em uma amostra de urina e a estimativa da taxa de filtração glomerular (TFGe), calculada geralmente a partir da creatinina medida no sangue.
A relação albumina/creatinina mostra se há perda aumentada de albumina pela urina. De modo geral, valores persistentemente iguais ou superiores a 30 mg/g merecem investigação. Já a TFGe estima quanto sangue os rins conseguem filtrar por minuto: valores persistentemente inferiores a 60 mL/min/1,73 m² podem indicar doença renal crônica, mesmo sem albuminúria.
Um resultado isolado alterado não basta, por si só, para estabelecer doença renal crônica. Infecções urinárias, exercício intenso recente, febre e outras condições podem elevar temporariamente a albumina urinária. Por isso, alterações costumam precisar de confirmação e avaliação ao longo do tempo, geralmente por pelo menos três meses quando se investiga cronicidade.
Segundo as recomendações da American Diabetes Association de 2026, esses exames devem ser realizados pelo menos uma vez por ano em todas as pessoas com diabetes tipo 2, desde o diagnóstico. No diabetes tipo 1, o rastreamento geralmente começa após cinco anos de doença. Quando já existe comprometimento renal, a frequência da avaliação costuma ser maior, conforme os resultados e o risco de progressão.
Toda pessoa com diabetes irá desenvolver doença renal?
Não. Ter diabetes aumenta o risco, mas não significa que a pessoa necessariamente terá nefropatia. A duração da doença, o controle da glicose, a pressão arterial, características individuais e outras condições de saúde influenciam esse risco. Além disso, pressão alta e doença cardiovascular frequentemente coexistem com o diabetes e também afetam a saúde renal.
Quando a perda de função renal acontece de forma muito rápida, há sangue na urina ou surgem achados pouco característicos, o médico pode investigar causas adicionais. Em alguns casos, pode ser necessária avaliação especializada e, mais raramente, biópsia renal.
Existe tratamento para a nefropatia diabética?
Sim. Embora parte das alterações estruturais possa ser permanente, o tratamento atual pode diminuir a perda de função dos rins e reduzir o risco de complicações cardiovasculares. A estratégia vai muito além de simplesmente baixar a glicemia: ela envolve controle da pressão arterial, proteção dos rins e acompanhamento contínuo.
O controle individualizado da glicose continua importante. A meta de hemoglobina glicada depende da idade, de outras doenças, do risco de hipoglicemia e da situação renal. Controlar a pressão arterial também é fundamental; em muitos adultos com diabetes, uma meta inferior a 130/80 mmHg é considerada, desde que seja segura e tolerada.
Em pessoas com hipertensão e albuminúria, medicamentos como os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), a exemplo do enalapril e do captopril, e os bloqueadores dos receptores da angiotensina II (BRA), como a losartana e a valsartana, podem reduzir a perda de proteínas e ajudar a proteger os rins. Sua prescrição exige avaliação da função renal e do potássio. Eles não devem ser usados indiscriminadamente apenas porque a pessoa tem diabetes.
Nos últimos anos, medicamentos inicialmente utilizados para tratar diabetes tipo 2 demonstraram benefícios importantes para os rins. Entre eles estão os inibidores de SGLT2, como empagliflozina e dapagliflozina, que podem diminuir a progressão da doença renal e o risco de insuficiência cardíaca em pacientes elegíveis. O benefício renal não depende apenas da redução da glicose.
Em situações específicas, medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida, e a finerenona também podem fazer parte da estratégia de proteção renal e cardiovascular. A escolha depende dos exames, das outras condições clínicas, das contraindicações e da disponibilidade. Nem todos esses tratamentos são indicados para diabetes tipo 1 ou para qualquer estágio de doença renal.
O que pode ser feito no dia a dia para proteger os rins?
Além de seguir o tratamento prescrito e realizar os exames de acompanhamento, vale cuidar da alimentação, reduzir o consumo excessivo de sal, manter atividade física compatível com a condição clínica, evitar o tabagismo e buscar um peso saudável quando necessário. A quantidade adequada de proteínas na dieta pode precisar de orientação individual, especialmente quando já há doença renal.
Também é importante evitar a automedicação com anti-inflamatórios, como ibuprofeno e diclofenaco, que podem prejudicar a função dos rins em certas situações. Medicamentos e suplementos devem ser avaliados considerando a TFGe, pois alguns exigem ajuste de dose. Beber água em excesso não reverte lesões renais e pode ser inadequado em determinadas condições.
A nefropatia diabética pode levar à diálise?
Em casos avançados, a perda de função renal pode chegar a um ponto em que diálise ou transplante se tornam necessários. Mas essa evolução não é inevitável. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem retardar muito a progressão da doença, e algumas pessoas permanecem por muitos anos com função renal estável.
Pessoas com perda progressiva da TFGe, albuminúria persistente importante ou causa incerta da lesão renal podem precisar de avaliação por nefrologista. O acompanhamento especializado é particularmente relevante quando a TFGe cai abaixo de 30 mL/min/1,73 m² ou existem complicações difíceis de controlar.
O cuidado começa antes dos sintomas
A principal mensagem é simples: não é preciso sentir algo nos rins para que eles estejam sofrendo. Quem tem diabetes deve acompanhar a saúde renal com exames apropriados, mesmo quando a glicemia parece controlada ou não existe desconforto. Identificar alterações cedo amplia as possibilidades de proteger a função dos rins e evitar complicações futuras.
Referências bibliográficas
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